Descompasso por Thiago Calixto

quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Thiago Calixto, estudante de Psicologia e parceiro do grupo CULTURANJA (blog,jornal e rádio).


A satisfação proveniente da dependência é um ganho secundário notório que remete ao primeiro momento satisfatório e como corolário aos seguintes – de alienação ao desejo do objeto primordial, inicialmente, e paterno e societário posteriormente. Verdade seja, (...) “o propósito de todo o processo patológico é o restabelecimento da satisfação primária original” (Freud, 1908/1969). Entretanto há também, com o decorrer da vida, um visível mal-estar em acatar o Mestre todo o tempo, em submeter-se aos desígnios de seu poder, ao seu imperativo sádico.
A velocidade de ações (aqui incluídas as passagens ao ato) encarnadas em leituras apressadas, no processo de alimentação e locomoção diárias, assim como na fluidez das relações responde ao discurso antigo, destarte, superegóico do dever de gozo; bem como ao Discurso hodierno da pressa e do automatismo, que obstaculiza o pensar e promove um repetir robotizado (expressão da pulsão de morte) que angustia e clama por respostas de outrem, amiúde não encontradas, e, portanto, abafadas no medicamento, na drogadicção e no consumo, para relacionar apenas alguns exemplos.
Daquela fala que almejava a escamotear a perda e sob o jugo do gozo do outro que impossibilitava enxergar ou perceber, ou melhor, elaborar a falta estrutural e o vazio inexorável; ao descompasso do coração angustiado, reflexo do homem contemporâneo que corre justamente para não ver passar o tempo, buscando enganar a rotina e camuflando o tempo próprio. Abdica de seguir a contramão do tempo atual, conforme sua subjetividade para rodar pela senda do vácuo, pregada por um instrumento que visa a matá-la, situando-a como transtorno.
O mal-estar do qual Freud falava em 1929 e que a religião fazia vezes de ilusório sustentáculo parece estar transposto, contemporaneamente, no dever da felicidade que seria atingida pela obtenção de bens materiais, pelo consumo indiscriminado do que efetivamente se faz prescindível. Verbo no futuro do pretérito, posto que não substitui, tão somente ilude.
- Tristeza?
- Prozac!
- Ausência do preparo físico para a função sexual?
- Viagra!
- Criança “elétrica”?
- Ritalina!
Importante citar Maria Rita Kehl (2009, p.27) e seu O tempo e o cão, cujas letras auxiliam a balizar o presente: “aquilo que Freud qualificava, por eufemismo, de mal-estar, tendo tomado com o tempo sua dimensão industrial, a civilização estende a cada um o artifício de suas ciladas de gozo: consumo (oral), acumulação (anal), olhar onipresente, voz por toda parte. Mas, à nova abundância, novos males: os excluídos em primeiro lugar, que sonham entrar na roda; e para os incluídos, a inanição da insaciável corrida aos pequenos supérfluos, a impotência em aplacar a sede... de Outra coisa”.
Seguindo via inglesa, termino com citação e dupla ainda, uma vez que trago de empréstimo as palavras de minha mais nova parceira literária – Caroline Guimarães Gil – quando o cansaço é pleno não precisa nenhuma palavra.


Ah! Já ia me esquecendo pessoal! E feliz dia do psicólogo! Muita motivação e alegria a você que contribui para a melhoria da qualidade de vida de muitas pessoas!!!